Que cuidados devo tomar para terminar novilhas sem excesso de gordura?

Fonte Giro do Boi

O manejo nutricional diferenciado para evitar a cobertura de gordura excessiva em fêmeas jovens foi um dos temas abordados em entrevista com a zootecnista e gerente de pesquisa e desenvolvimento da Trouw Nutrition Josiane Lage, destaque do Giro do Boi desta terça-feira, dia 30.

A especialista falou sobre novidades no que diz respeito à intensificação da engorda e ainda respondeu dúvidas de telespectadores durante sua participação. Confira as considerações de Josiane Lage nos tópicos listados a seguir:

– Quais os cuidados que devemos ter para não gerar excesso de gordura depositada nas novilhas? (Samir Gonçalves, de Bataguassu-MS)

Lage: “A gente tem que tomar cuidado com a novilha, pensando tanto em Angus quanto Nelore. Hoje em dia a gente tem visto muitos sistemas de produção usando as cruzadas, saindo da desmama e colocando no confinamento. […] Pensando no sistema a pasto, a gente tem que tentar explorar o ganho dessa novilha para ela depositar o máximo de tecido muscular, então a gente precisa dar uma dieta um pouco mais proteica e menos energética para ela enquanto ela está nesta fase de crescimento. E quando a gente decidir colocar no semiconfinamento só para finalizar a terminação, para mandar para o abate, aí sim a gente pode usar um suplemento um pouco mais energético.

Tem que tomar muito cuidado, porque se logo depois da desmama a gente já entra com uma dieta muito energética para esse animal, realmente ela vai depositar muita gordura e a gente não consegue explorar tanto o potencial de desempenho da novilha. Isso ocorre porque as fêmeas atingem a maturidade muito mais cedo do que os machos, então realmente elas têm esse potencial de depositar mais gordura.

Lembrando que se essa fêmea for jovem, hoje alguns frigoríficos pagam por maior qualidade, mas claro que não pelo excesso (de gordura). Tem um limite de seis milímetros de gordura depositado na carcaça é muito bom para esse tipo de novilha hoje. O mínimo que o frigorífico exige hoje tanto para macho quanto para fêmea são três milímetros, e a gente sabe que a maior parte do mercado hoje em geral não atinge isso. Mas se a gente for falar de um teor desejável de gordura na carcaça, seis milímetros é muito bom e você consegue negociar um preço muito bom dessa novilha no frigorífico, promovendo a bonificação na arroba. Então a gente tem que promover uma dieta mais proteica para esse animal no início, não entrar já com uma dieta tão energética, porque senão realmente ela deposita uma quantidade de gordura muito excessiva”.

– Eu uso a mesma ração para vacas e novilhas Nelore? Ou tem um tratamento, uma dieta diferenciada para cada categoria? (Sávio Mendes, de Aiuruoca-MG)

Lage: “É como a gente acabou de comentar. Para novilha, tem que tentar fazer primeiro uma dieta mais proteica para depois entrar com um energético só para dar um acabamento final. Quanto às vacas, a gente está falando de vacas de descarte, que não emprenharam numa estação de monta e que, às vezes, saíram muito magras, então elas precisam de uma dieta mais energética porque a vaca já atingiu a maturidade, é só para depositar gordura e a gente mandar num escore muito bom para abate. Então realmente vai ser um pouco diferenciado, sim”.

– Tenho uma lavoura irrigada de milho, compro animais de 14 arrobas e já levo para engorda direto em confinamento de silagem de milho. […] É interessante financeiramente usar outro alimento junto com a silagem de milho? (Fábio Nascimento, de Belo Horizonte-MG)

Lage: “Se você está com animais de 14@ entrando no confinamento, você precisa complementar a dieta desses animais para você ter um ganho de peso que é da exigência desse animal. Então o animal que já está com 14@ está com uma taxa de crescimento elevada, com uma exigência maior de proteína, de acordo com o ganho que você projetar para ele, mas só a silagem de milho não é suficiente para promover ganhos satisfatórios dentro de um confinamento. Você vai precisar complementar a dieta deste animal, formular uma dieta para aproximadamente 14% de proteína bruta, dependendo do tipo do seu animal. Mas você vai complementar com fonte energética, fonte proteica, usar um pouco de ureia, macro e microminerais e alguns aditivos. É super importante complementar para você ter um ganho para esse animal ser ainda mais eficiente do que ele já está sendo na sua fazenda”.

– Com a época de chuva, meu pasto está bom. É melhor continuar também com a ração? O gado vai engordar mais rápido com isso? (Cesar Pompeo, de Iaciara-GO)

Lage: “Com certeza. Quanto à ração, a gente tem que pensar que é um complemento desse pasto. Então isso vai depender da quantidade que a gente vai dar, porque a partir de uma suplementação mais alta que você fornece para esse animal, ele começa a substituir o consumo de pasto. E o suplemento, por exemplo, contém milho, proteína, e ele pode ser muito eficiente consumindo um suplemento em relação somente à nutrição a pasto. Então é vantajoso mesmo em período de águas”.

– Qual o limite de porcentagem de casquinha de soja eu posso usar na fórmula do proteinado? (Nilton Augusto, de Cotegipe-BA)

Lage: “Com a casquinha de soja você pode substituir toda a fonte energética. A mesma quantidade que você colocaria de milho no seu proteinado, você pode substituir pela casquinha de soja. São dois ingredientes energéticos e já tem várias pesquisas comprovando que ela pode substituir o milho”.

– Gostaria de saber qual quantidade de torta de algodão eu posso dar para o animal. (Jussara, de Nova Fátima Bahia)

Lage: “A torta de algodão tem um teor de extrato etéreo bem mais elevado. […] A gente tem que tomar cuidado para não extrapolar na dieta total dos animais um teor máximo de 5% de extrato etéreo considerando pasto e suplemento. Então, no máximo 5% de extrato etéreo, e aí depende do teor de extrato etéreo dessa torta que ela tem comprado no mercado. Tem que analisar (análise laboratorial do nutriente) porque depende do método de extração”.

– Além de energia, o algodão é fonte de mais o quê? (Claudenor, de Condeúba-BA)

Lage: “O algodão contribui para a parte de fibra e também tem proteína. Então o caroço de algodão é fonte proteica também. É um ingrediente muito utilizado também nessas dietas, tanto de semiconfinamento quanto de confinamento”.

LIMITE DO USO DO CAROÇO DE ALGODÃO NA DIETA

“Na matéria seca total da dieta, considerando o que esses animais consomem pasto e suplemento, a gente coloca no máximo 15% de caroço de algodão. Então um animal numa dieta de confinamento vai comer no máximo dois quilos ou um pouco mais de caroço de algodão. Isso porque também já tem vários trabalhos mostrando que quando você passa desse limite, o boi começa a reduzir um pouco o consumo, diminui a eficiência dos animais”.

CONFINAMENTO, SEMICONFINAMENTO E TIP – TERMINAÇÃO INTENSIVA A PASTO

“Todos os sistemas são formas de a gente poder confinar esses animais, mas eles têm alguma diferença entre si. Quando a gente fala em TIP, que é a terminação intensiva a pasto ou confinamento expresso, que foi a técnica realmente desenvolvida para fazer a terminação intensiva a pasto, ou o confinamento a pasto, a gente está falando mais ou menos da mesma coisa. Eles são sistemas para alimentar esses animais em piquetes, no pasto, acima de 1,5% do peso corporal em alimento concentrado.

E quando a gente está falando em semiconfinamento, a estrutura não muda muito quando a gente compara com o confinamento expresso ou a TIP, mas a gente fornece uma quantidade um pouco menor de concentrado para esses animais, então é um pouquinho menos intensivo do que o confinamento expresso. E a gente caracteriza o semiconfinamento com uma quantidade de concentrado fornecida a pasto entre 0,8 a até mais ou menos 1,5% do peso corporal desses animais. Mas o mais comum e mais praticado hoje é fornecer ao redor de 1 a 1,2% do peso corporal dos animais em concentrado a pasto”.

O MILHO PRECISA ESTAR OBRIGATORIAMENTE EM UMA DIETA DE ENGORDA INTENSIVA?

“Não necessariamente. Necessariamente a gente precisa ter uma fonte energética na dieta desses animais e o milho é uma fonte energética. Dependendo da região onde ele estiver, se o pecuarista tiver alternativas com preços melhores em relação ao milho, ele pode utilizar. Claro que tudo deve ser bem balanceado e analisado por um zootecnista para a gente fazer uma dieta que vá atender a expectativa do pecuarista. Mas a gente pode lançar mão e utilizar várias fontes energéticas na suplementação desses animais, como, por exemplo, a casquinha de soja, a polpa cítrica, e aí depende da região e que o pecuarista tem para utilizar. O sorgo também pode ser utilizado, com certeza”.

CUIDADOS NO USO DO DDG E WDG

“O DDG e o WDG são alternativas muito boas. Para quem ainda não está familiarizado, eles são coprodutos da indústria do etanol e podem ser extraídos tanto do milho quanto também do sorgo, sendo coproduto tanto de milho quanto de sorgo. Só que a gente tem que tomar um cuidado muito grande hoje no mercado porque DDG não é uma coisa só. […] Quando a gente fala no mercado que vai usar DDG, temos que ver qual tipo de DDG você está querendo incluir na sua dieta. É super importante a gente avaliar esse produto, esse ingrediente antes de a gente fazer a formulação porque hoje no mercado tem muito DDG variando teor de proteína, a gente encontra DDG com 40, com 30, com 28 e ele varia também o teor de extrato etéreo, que são as fontes lipídicas, que podem variar de 1, 2, 6 a até 8% no produto. Então a gente tem que tomar muito cuidado com isso quando a gente vai formular porque proteína é um dos principais ingredientes da formulação, o que vai realmente aumentar o potencial de ganho de peso do meu animal. O DDG pode ser uma alternativa também não só à fonte energética, que é o milho, mas ele é muito versátil e pode também substituir a fonte proteica. Para isso já tem vários trabalhos que foram feitos no mercado, como a pesquisa pela Trouw Nutrition em parceria com a UNESP de Jaboticabal, e a gente já tem várias resultados mostrando que ele é realmente eficaz para substituir a fonte proteica. Lembrando sempre de consultar um zootecnista e fazer uma análise desse produto antes.

“O WDG tem um ponto importante. […] Muitas pessoas comentam muito sobre o DDG e o WDG é um produto muito similar ao DDG, só que na forma úmida. Então ele tem características muito similares de energia, de proteína, mas ele tem um teor de umidade muito alto, podendo chegar a 65 a 70% de umidade – o DDG tem 10 a 12% de umidade. Isso impacta nos custos no transporte e armazenamento na fazenda, porque você não pode armazenar mais que três ou quatro dias porque esse produto começa a fermentar. Então se você tem uma fazenda que é perto da usina, onde você consegue ter uma viabilidade de usar esse produto com essa frequência, vale muito a pena, obviamente analisando os custos, incluindo na dieta avaliando preço. Mas a gente tem que ter cuidado com o WDG um pouco maior na comparação com o DDG por causa dessa umidade”.

PRAZO DE VALIDADE DA RAÇÃO DE ENGORDA

“Depende do tipo de produto que você está utilizando, do ingrediente que você está misturando. Se você está usando uma ração comum com milho, soja, ureia e mineral, a gente tem um prazo de pelo menos três meses para poder utilizar esse produto na fazenda”.

  • Compartilhe:

© Copyright - Todos os direitos reservados - Acrioeste 2021