Gerenciar fazenda sem números é “dirigir de olhos vendados”, diz pecuarista

Fonte Giro do Boi

“Sem os indicadores, a gente não sabe para onde a gente está caminhando. É como se a gente dirigisse um carro de olhos vendados”, comparou em entrevista ao Giro do Boi desta sexta, 26, o pecuarista Gustavo Pansani, gestor da Fazenda Barra Grande, em Mineiros, no estado de Goiás. “(Sem números) Você não sabe que caminho você vai tomar. Com os indicadores, você consegue ver onde está acertando e o que pode melhorar. Isso facilita o processo, as discussões. A gente não toma mais decisões com base no que eu acho, mas sim no que os números demonstram”, completou o produtor.

A Fazenda Barra Grande é uma das participantes da última temporada do programa Fazenda Nota 10, que capacita pecuaristas de corte em gestão financeira, zootécnica e de pessoas e oferece ainda uma plataforma de comparação de resultados – benchmarking – com fazendas com sistemas produtivos e adversidades parecidas. O programa – que está com inscrições abertas para a próxima edição (veja pelos links abaixo) – é feito em parceria entre o Friboi e a Inttegra, empresa especialista em indicadores e benchmarking na pecuária, em que o pecuarista parceiro que é fornecedora da indústria ganha subsídio de 75% do valor integral.

“Sem dúvida nenhuma a gente está vendo o crescimento e a importância da gestão, até porque a atividade pecuária […] Se não tem gestão, o pecuarista não sabe se ele está mais perto de 300 gramas de ganho médio diário ou perto de um quilo. Ou se ele está gastando muito ou gastando pouco. Hoje a pecuária profissional é o melhor negócio disponível para o empresário, para o empreendedor, desde que seja feita de forma profissional. E fazer de forma profissional é ter uma visão clara do que se busca e os parâmetros de acompanhamento”, ressaltou o zootecnista Antonio Chaker, diretor da Inttegra.

O consultor sustentou a importância não só dos avanços em gestão, como a comparação dos números com outras propriedades, um dos diferenciais do programa Fazenda Nota 10. “A gente está vivendo uma fase complicadíssima de pandemia. A gente sabe o quão grave é. Mas imagine se a gente não tivesse números de tudo isso para monitorar, como percentual de leitos, a temperatura que a pessoa fica quando pega a Covid… Então, com número, a referência ideal passa a ser algo que é fundamental. Quer dizer, qual é o bom? Trazendo isso para a pecuária, nós sabemos, por exemplo, que nesse cenário de arroba de boi e bezerro, […] eu tenho que ter 500 gramas de ganho por dia, pelo menos, e gastando, no máximo, R$ 100,00 por mês. Se eu estou fora dessa relação que o benchmarking nos ensinou, eu não vou ganhar dinheiro com pecuária. Então eu preciso ter esse número, então essa é a importância. Quem se compara, evolui”, respaldou.

Chaker destacou ainda os pontos fortes identificados no trabalho conduzido pelo programa Fazenda Nota 10 junto à propriedade em Mineiro-GO. “Hoje está junto conseguindo intensificar, reduzir custo fixo, repensar o sistema de terminação, produzindo volumoso barato”, enalteceu.

Pansani contextualizou a história da Fazenda Barra Grande e seu caminho até integrar o Fazenda Nota 10. “No passado, a fazenda era tocada pelo meu avô, meu pai e meus tios. E recentemente foi feita a divisão. E assim que meu pai pegou a nossa área, ele já colocou eu e meu irmão para participar. Esse foi um assunto que a gente sempre debateu aqui dentro de casa. Meu pai sempre fez questão de os filhos participarem da fazenda desde pequenininhos, ele levava a gente para conhecer o lado bom e o lado difícil de produzir carne. Durante a faculdade, eu me especializei nesse assunto, eu me dediquei à sucessão familiar, então a gente sempre conversou sobre isso”, recordou.

Gustavo, que junto com seu irmão passa pelo processo de sucessão familiar na Fazenda Barra Grande, comentou como o programa ajuda durante essa “passagem do bastão”. “Sem dúvida (contribuiu), porque logo que nós começamos a trabalhar com o nosso pai, a gente começou a levantar os dados, os números. Só que nós tínhamos os números nas mãos, mas não sabíamos o que eles representavam. Aí nós ficamos perdidos. Não adiantava nada, nós tínhamos os números, mas não sabíamos o que fazer. Com o programa, eles mostram pra gente o caminho, através dos indicadores e seus comparativos, o que pode ser melhorado e o que já está sendo feito de bom. Sem dúvida, o programa tem esse diferencial: ensinar a gente a utilizar os dados”, valorizou.

Chaker revelou como a Barra Grande aproveitou os números no direcionamento da fazenda para novos rumos. “Eles tiveram uma potência de conseguir entregar uma margem por arroba produzida muito superior à média, e superior aos 30% melhores. É um projeto em que eles conseguiram gastar a quantidade de dinheiro, e mesmo assim o Gustavo sempre fala que precisa achar uma forma de gastar ainda melhor e uma forma de produzir ainda mais. Mas ele já está conseguindo, […] conseguiu 590 gramas de ganho médio diário numa fase difícil (seca), […] já está percebendo que ganho está legal e já está focando nas estratégias para crescimento de lotação, de carga animal na fazenda, que é o próximo passo. […] Ele sabe o que está bom e o que está ruim, encara o que está ruim de frente, comemora o que está bom, mas sem deixar a peteca cair”, elogiou.

Com GMD considerado bom (quase 600 gramas na seca), foco da Fazenda Barra Grande passou a ser o aumento da lotação.

O pecuarista apresentou quais as próximas melhorias a serem implementadas na Fazenda Barra Grande. “A gente identificou que o nosso GMD estava bom, só que a nossa lotação estava baixa. Então a gente viu que o caminho é intensificar a nossa produção. A gente começou a fazer um pastejo rotacionado, começamos a adubar pastagens, fazer controle de plantas invasoras, todos manejos focados em melhorar essa lotação”, disse Pansani, ilustrando como funciona, na prática, a orientação do programa Fazenda Nota 10. Gustavou salientou ainda que sua família, a partir dos números, está transformando a propriedade de recria e engorda para o ciclo completo, identificando a oportunidade por meio do programa.

“Um ponto especial do Gustavo é que a gente fala que tem que aumentar a lotação, que dá pra reduzir mortalidade, mas é um processo que não pode ser feito sem um planejamento, sem respeitar o caixa. É sempre melhor a gente fazer de forma consistente, respeitando caixa, incrementar um degrau por vez. Não precisa resolver todos os problemas no mesmo dia e, de repente, se expor a um desafio de, por exemplo, gastar mais que poderia. Isso é muito consciente na Fazenda Barra Grande. Eles fazem de acordo com o que o caixa permite, com o que a margem viabiliza. Então a gente tem que buscar ser melhor a cada dia, o que é uma das características das propriedade do Programa Fazendas Nota 10, mas fazendo com que os líderes durmam em paz, sabendo que as coisas estão caminhando, que não tem caminho fácil, mas que se melhora a cada dia. Tem que respeitar esse ponto de seguir no ritmo e na toada que o caixa permite, mas sempre olhando para melhoria”, justificou Chaker.

O produtor comentou ainda como classifica as atividades do programa Fazenda Nota 10 – as conferências por vídeo realizadas com as 130 fazendas que participam da temporada atual da iniciativa. “Cada reunião com o Chaker é uma pancada de conteúdo. O cara é uma máquina de informação! Assistindo uma só vez não dá para absorver tudo! Tem que ver, rever e anotar para poder colocar tudo em prática”, brincou Pansani. “É como o Chaker mesmo fala: quem planta acho, colhe quase. E a pecuária não admite mais isso”, declarou o gestor.

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