Embrapa desenvolveu cultivar que pode ser a mais plantada do mundo

Fonte Giro do Boi

Estima-se que seja fruto do programa de melhoramento de forrageiras tropicais da Embrapa a cultivar vegetal que pode ser a mais plantada do mundo, presente em cerca de 50 milhões de hectares globo afora. A informação foi um dos destaques de novo capítulo da série especial Embrapa em Ação, que foi ao ar no programa desta sexta-feira, dia 14.

Conforme estimou o pesquisador da Embrapa Cerrados Marcelo Ayres Carvalho, mestre em agronomia e PhD em genética e melhoramento de plantas pela University of Florida, a Brachiaria Brizantha cv Marandu é possivelmente a cultivar única de vegetal mais plantada no planeta. “A gente está falando de 50 milhões de hectares! Não tem uma única cultivar de qualquer outra espécie que ocupe uma área tão grande como essa”, projetou. Apesar do fato relevante, o especialista fez um alerta para um perigo que pode ser consequência desta prática.

O pesquisador traçou durante sua entrevista à equipe de reportagem do programa uma linha do tempo do programa de melhoramento genético de forrageiras da Embrapa. “Os programas de melhoramento de forrageiras da Embrapa se iniciaram quase que junto com a criação da empresa em 1975. A partir de então, as equipes foram formadas, as pesquisas se iniciaram sempre procurando oferecer oportunidades e novidades que vão acrescentar e facilitar a vida do pecuarista brasileiro”, contextualizou. “Os nossos programas, na verdade, são bem antigos. A Embrapa tem, no que diz respeito a forrageiras tropicais, oito programas de melhoramento que envolvem as principais gramíneas e também leguminosas. E todos esses programas vêm, ao longo dos anos, entregando novos cultivares e novos ativos que são importantes para a pecuária nacional”, completou.

Segundo Ayres, o programa começou com foco em espécies já presentes em terreno brasileiro. “No começo a gente colocou foco nas gramíneas que já ocorriam naturalmente no Brasil. Ou eram nativas ou gramíneas que a gente chama de naturalizadas. É o caso, por exemplo, do Colonião, do Capim-gordura, do Bengo. Aqueles pecuaristas que estão na atividade há mais tempo vão se lembrar de ter usado esses materiais. Isso ocorreu até os anos 70”, recordou.

Na sequência, em busca de mais produtividade, os produtores passaram a cultivar uma novidade no mercado brasileiro, espécies vindas do outro lado do oceano, o que representou um risco sem a orientação correta. “A partir de meados dos anos 70 e início dos anos 80, a gente já começou a ver no Brasil a introdução de gramíneas africanas, principalmente as braquiárias. Isso se deu muitas vezes sem uma pesquisa adequada, ou seja, eram cultivares ou eram materiais que eram utilizados principalmente na Austrália. Os australianos também têm uma pecuária muito antiga e muito ativa e as empresas começaram a importar sementes e a comercializar no Brasil. Aí você viu a entrada da Braquiarinha, da Humidicola, do Ruziziensis e começou então uma grande utilização principalmente desses materiais. Acontece que quando trouxeram esses materiais da Austrália para cá sem fazer esse trabalho de pesquisa, apareceu uma praga que ocorre no Brasil, que é a famosa cigarrinha-das-pastagens, e muitos desses materiais que não tinham sido selecionados nas condições brasileiras sofreram muito”, revelou.

Descobrir variedades resistentes à praga foi uma das primeiras missões do programa de melhoramento de forrageiras de Embrapa. “A partir daí, a gente começou a dar um outro foco e procurar então, nessas espécies que são de origem africana, materiais que eram tolerantes ou resistentes a essas cigarrinhas. Então a primeira cultivar forrageira tropical que a Embrapa lançou foi o Andropogon gayanus cv. Planaltina. Foi um trabalho desta unidade, obviamente associado em rede com outras unidades da Embrapa que trabalham com o tema forrageiras, e isso aconteceu em 1980. Essa cultivar foi rapidamente adotada. A gente tem números de que ela chegou a ocupar mais de 500 mil hectares porque é um cultivar que se adapta bem a solos pobres, de baixa fertilidade, tolera bem a seca”, informou.

“Em 84, a gente lançou a famosa Brachiaria brizantha cv. Marandu, que se tornou uma febre. Primeiro porque era uma braquiária, e ela veio substituindo essas braquiárias que tinham sido importadas, mas ela também tinha uma grande característica: ela era resistente à cigarrinha-das-pastagens. Então rapidamente o Marandu ocupou uma área extensiva no Brasil. Hoje a gente acredita que a braquiária Marandu é a cultivar vegetal mais plantada no mundo. A gente está falando de 50 milhões de hectares, não tem uma única cultivar de qualquer outra espécie que ocupe uma área tão grande como essa. Isso mostra a grande relevância, a qualidade da cultivar, o que ela entrega ao pecuarista, mas também isso coloca como um problema porque a gente tem uma área contínua de 50 milhões de hectares com o mesmo cultivar. Você imagine que se aparece uma praga nova, uma doença que pega essa cultivar, a gente está pondo em risco a pecuária nacional”, alertou o pesquisador.

Para seguir com o trabalho de desenvolver novas soluções para os produtores, a Embrapa contou também com parcerias internacionais de entidades da América, da África e Europa também. “Depois disso a gente continuou com os nossos programas. A partir de colaborações com centros internacionais, […] eles foram até a África e fizeram coletas. As braquiárias e o panicuns e os andropogons, ou seja, grande parte dessas gramíneas forrageiras são de origem africana porque a savana evoluiu e, junto com a evolução da savana, com grandes manadas pastejando de gnus, antílopes, etc, essas gramíneas evoluíram junto e estão adaptadas a serem pastejadas. Então o trabalho seguiu e aí a gente começou a lançar frutos das avaliações dessas coleções de braquiárias cultivares mais novas. É o caso da Xaraés, do Arapoti, do Ipyporã, do Piatã, do Paiaguás, mais recentemente, que foram ocupando áreas porque traziam características diferentes”, justificou.
Mas o trabalho da Embrapa no programa de seleção e melhoramento das forrageiras não para na entrega da semente. O esforço segue com um conjunto de recomendações para o melhor uso da tecnologia produzida, conforme salientou o agrônomo.

“Além da cultivar, você recebe todas as recomendações de como plantar, de como adubar, de como manejar com o gado, o que você pode ou não fazer. Ali dentro da planta, a gente brinca que é como se tivesse um chip com uma gama de informações frutos de oito a dez anos de pesquisas condensadas naquela sementinha. Então é muito esforço e muito trabalho e quando a gente lança uma cultivar nova, a gente está com certeza de que ela vai funcionar e vai dar certo”, assegurou.

Sob os pés do pesquisador, que concedeu entrevista em uma área de testes de novos materiais, estava justamente o futuro do programa da Embrapa. “Aqui a gente está numa área de teste dos novos materiais, de futuras cultivares de Panicum maximum, da espécie também conhecida comumente do tipo Colonião, e daqui vão sair as novas cultivares. […] Aqui nesta área em particular a gente tem 24 tipos diferentes da espécie Panicum maximum. São potenciais cultivares. Você vai ver que tem um de folha fina, outro de folha mais larga, outro que cresce mais, o que cresce menos, diferentes características morfológicas. E durante dois anos, ou seja, um período chuvoso, um período seco, outro período chuvoso e outro seco, a gente avalia quanto essas plantas produzem”, afirmou.

O pesquisador revelou como o trabalho de seleção e descoberta de variedades é feito. “Manualmente a gente vem aqui, corta a forragem produzida, geralmente em períodos de 35 a 40 dias, o que simula o que acontece num pasto, ou seja, o gado entrar aqui a cada 35 dias ou até menos. Então a gente faz todo esse trabalho e avalia quanto a cultivar produziu, avalia quanto ela tem de folha, quanto tem de colmo. Depois pega essa forragem, manda para o laboratório e analisa quanto que eu tenho de proteína, e isso é algo que o pecuarista sempre pergunta, quanto tem de digestibilidade, ou seja, quanto dessa forragem vai, de fato, ser consumida pelo boi, como ela vai ser aproveitada e transformada em energia para o boi fazer o que tem que fazer, que é dar leite ou produzir carne”, detalhou.

“Então a gente faz todo esse trabalho aqui para selecionar dessas 24, quatro ou cinco que são as melhores que vão ser potenciais futuras novas cultivares. Daqui elas vão para o ensaio de pastejo, onde a gente testa sempre esses novos materiais comparando-os com o que existem no mercado. Então, no caso dos Panicuns, quais são as cultivares mais modernas que estão no mercado? A Zuri, a Quênia e a Tamani. Muita gente ainda usa o Mombaça e tem gente que usa o Tanzânia, que é lá dos anos 90. Mas a gente sempre testa com o que há de mais novo porque à medida que você lança um cultivar, você espera que esse cultivar mais moderno seja mais produtivo do que os antigos. Então se eu faço cria, eu vou buscar aqueles cultivares que são mais apropriados ou vão me entregar mais do que outros. Se eu faço recria ou terminação, eu vou procurar utilizar outros cultivares. Junto com isso, vem toda uma questão tecnológica que vem pela frente. Então nós também estamos preocupados com isso nos programas, começando a direcionar os novos lançamentos para esse tipo de demanda ou necessidade que vai acontecer”, compartilhou o pesquisador Marcelo Ayres Carvalho.

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