Exportadores argentinos podem receber “tarifa zero” sobre quase 80% de seus produtos exportados ao mercado norte-americano

A potencial ausência do Brasil na lista dos países fornecedores de carne bovina aos Estados Unidos – caso passe a vigorar a taxa de importação de +50% imposta pelo governo Trump – abre uma oportunidade significativa para o ganho de participação da proteína exportada pela Argentina ao mercado norte-americano.
Pelo menos é o que pensa a equipe de economistas/analistas da Bolsa de Comércio de Rosário (BCR).
“Claramente, devido ao tipo de produto que oferecem, mas fundamentalmente por causa dos acordos comerciais que mantêm, Austrália e Nova Zelândia parecem ser os principais beneficiários de uma potencial saída brasileira”, diz a BCR, que acrescenta: “No entanto, dentro do grupo de países sul-americanos, a Argentina posiciona-se como a principal candidata a ganhar espaço neste novo cenário”.
Segundo os economistas, nos últimos dias, surgiram notícias vindas do próprio governo Trump sobre um avanço iminente nas negociações para um acordo tarifário diferenciado com o governo argentino.
Segundo essas notícias, com exceção do aço e do alumínio — que manteriam uma tarifa de 50% —, a Argentina poderia obter tarifa zero sobre quase 80% de seus produtos exportados para os Estados Unidos, incluindo a carne bovina.
Além disso, paralelamente, também está sendo considerada uma possível expansão da cota de 20.000 toneladas de carne bovina argentina que atualmente entra no mercado norte-americano com tarifas zero.
“Em última análise, se o progresso nas tarifas se concretizar, isso poderá levar a redirecionamentos significativos nos fluxos comerciais, dos quais a Argentina claramente se beneficiaria”, destaca a BCR.
De acordo com os analistas, a possibilidade de alcançar maior penetração de exportações no mercado norte-americano — mesmo sem um acordo de tarifa zero — aumentaria substancialmente o valor por tonelada exportada em comparação ao que a China paga atualmente pela proteína argentina.
O preço médio dos cortes que entram nos Estados Unidos sob cota, diz a BCR, gira atualmente em torno de US$ 10.400 por tonelada, enquanto os cortes destinados à China variam entre US$ 5.000 e US$ 6.000 por tonelada.
“Em outras palavras, um mercado impulsionado pelo volume (chinês) seria parcialmente substituído por um menor (norte-americano), mas com um preço significativamente mais alto”, relata a BCR.
Além disso, acrescentam os analistas, no caso da China, a investigação de salvaguardas ainda está pendente, de modo que não se pode descartar a possível imposição de novas tarifas e/ou restrições de acesso, “o que poderia alterar a competitividade deste importante destino da carne argentina”.
“Uma possível mudança entre os dois destinos abriria a possibilidade de reequilibrar nosso portfólio de mercado de exportação de carne bovina, reduzindo a alta dependência atual do mercado chinês e melhorando o valor médio da proteína”, enfatiza a BCR.
Tarifa total de 76,4% para o Brasil
Se a ameaça dos EUA for colocada em prática, o Brasil passaria a pagar um adicional de 50% sobre os produtos que exporta para os Estados Unidos a partir de 1º de agosto.
No caso da carne bovina, isso elevaria a alíquota total para 76,4%, patamar considerado praticamente proibitivo para manter esse mercado como destino viável, observa a BCR.
Nos primeiros seis meses do ano, o Brasil exportou aproximadamente 156.000 toneladas de carne bovina para os Estados Unidos, gerando receita aproximada de US$ 791 milhões.
Isso representou 12% do total exportado para todos os destinos, e quase o dobro da quantidade embarcada para os EUA no mesmo período do ano passado.
China no meio do jogo de novas negociações
A BCR lembra, porém, que o Brasil é um forte concorrente da Argentina no mercado internacional da carne bovina, compartilhando a maioria dos mercados compradores.
“Uma potencial interrupção comercial entre o Brasil e os Estados Unidos criaria um vazio nesse mercado. Isso poderia representar, por um lado, uma oportunidade para a Argentina vender parte de sua produção. Mas, por outro, também poderia representar uma ameaça a outros destinos, dada a agressividade com que o Brasil provavelmente buscará realocar seus excedentes durante o restante do ano”, dizem os economistas.
Nesse contexto, continua a BCR, a China parece ser o principal mercado para o qual o Brasil provavelmente direcionará esses excedentes. Em maio, das 1.085.000 toneladas de carne bovina que entraram na China, 46% foram fornecidas pelo Brasil, enquanto a Argentina respondeu por 16% – há um ano, essas participações eram de 42% e 26%, respectivamente.
“Isso demonstra claramente a crescente agressividade comercial do Brasil, mesmo em um cenário em que os Estados Unidos permaneceram como um destino ativo para sua carne bovina”, observam os economistas. (Fonte Portal DBO)



