Agro protegeu 310 mi de hectares do desmatamento no Brasil em três décadas

Fonte Giro do Boi

Em entrevista ao Giro do Boi nesta quarta-feira, dia 07, o engenheiro agrônomo esalqueano Maurício Palma Nogueira, coordenador do Rally da Pecuária e diretor da consultoria Athenagro, repercutiu o artigo “Desmatamento ilegal: o agronegócio precisa assumir a liderança”, recentemente publicado por ele.

“Na verdade a gente anda o Brasil como um todo há dez anos, e fora outro dez anos antes de muito trabalho, muito estudo, muita consultoria. O produtor tem a cabeça sustentável, ele tem cada vez mais noção disso e ele é preservacionista. Eu cansei de ver produtores defendendo áreas de nascente, preservando, combatendo ou reclamando da atividade ilícita na região dele. Eu vi produtores que relataram que têm licença para fazer o manejo sustentável de mata na fazenda dele e não fazem porque eles têm medo da nota fiscal deles serem usadas para esquentar madeira ilegal. O produtor é grande vítima de um processo ilícito que acontece no Brasil que é causado por um dinheiro de origem desconhecida. A gente não sabe de onde vem”, advertiu o agrônomo.

“A maioria das pessoas que querem esconder algum dinheiro vai para uma atividade em que é fácil esconder – e na pecuária é fácil porque o boi se locomove, o rebanho se reproduz. É muito fácil esconder. Evidentemente o grande debate hoje é como a gente combate tudo isso. A gente tem que estrangular a viabilidade desse negócio ilícito. Mas o produtor deveria cada vez mais levantar essa bandeira e ser protagonista desse debate. Nós deixamos isso andar e, de repente, as legislações, as decisões estão sendo elaboradas por gente que não conhece nada da pecuária, por gente que inclusive carrega uma dose pesada de preconceito contra o pecuarista”, alertou.

Para entender a relação entre produtor rural e desmatamento, Maurício explicou buscou os dados oficiais e cruzou com as informações obtidas. “O que aconteceu esse ano é que a gente revisitou todos os nossos dados. A gente aqui é muito crítico, a gente tem que passar credibilidade do trabalho nosso, essa credibilidade não pode ser da boca para fora, a gente tem que justificar isso. Nós estamos desde julho do ano passado, de 2019, argumentando e perguntando para o pessoal que organiza determinado estudo porque que os dados estão entrando em conflito com o histórico do IBGE. Nunca teve resposta. Só no dia que nós resolvemos publicar esse estudo. Aí veio uma resposta agressiva, extremamente soberba e intimidadora. E a gente pensou ‘está bem, vamos dar um voto de confiança para a vossa honestidade’. E revisitamos tudo! Eu peguei toda a nossa base de dados que tínhamos e trouxemos tudo de volta para ver se tinha alguma atualização, algum erro do passado”, revelou.

“Foi até um exercício bem interessante aqui na nossa empresa porque a gente melhorou toda a base de dados e aí nós conseguimos cruzar com outras informações. Então não é propaganda, não é conversa. De qualquer forma que você estude, nós temos um ganho, de censo a censo, de 150% no nível de produtividade da pecuária. Quando a gente traz isso para dados mais atualizados, com muitos períodos, só que usa informações corretas e que se comunicam, a gente identifica de 1990 até 2019, nós tivemos um aumento de produtividade quase de 270% e isso equivale dizer que nós economizamos uma necessidade de desmatamento de 250 milhões de hectares. E esses dados podem ser levantados juntos a um estudo fantástico que o Inpe tem, que chama Terraclass, você pode acompanhar as informações e checá-las: nós temos nesse período mais 60 milhões de hectares que começaram o processo de regeneração, que dizer, virando mato de novo. Então a pecuária brasileira, junto com a agricultura, que ocupou áreas da pecuária também, evitaram o desmatamento, em quase 30 anos, de 310 milhões de hectares. Essa é a área protegida pela agropecuária brasileira só com aporte tecnológico”, calculou Nogueira.

Em trecho do artigo, Nogueira trata especificamente da pecuária de corte, destacando que o “principal alvo dos ambientalistas, as exportações de carne bovina, nesse período, aumentaram 90% com a produção 42% maior em uma área 10% menor”, especificou.

Maurício exaltou ainda a participação dos produtores no combate aos incêndios, que estão ocorrendo, sobretudo, dentro das propriedades rurais em diversas regiões do país.

“O pessoal não entende! O produtor, os funcionários das fazendas estão lá combatendo o fogo na prática! E o pessoal na cidade combatendo o fogo no Facebook, no Twitter achando que estão fazendo uma maravilha, né? Vai lá no campo ver como que acontece! Claro, nós temos origens de fogo de várias formas. Quando o pessoal do Inpe coloca que o fogo começa com a atividade humana, não é todo fogo que foi colocado. Um dos problemas da atividade humana é lixo jogado em beira de estrada. Vidro, lata, até matéria orgânica. Espiga de milho, se tiver aqueles grãos que começam a arder, pode pegar fogo. Então tem o risco enorme que a gente tem e precisa entender”, esclareceu.

Nogueira informou que os incêndios atingem sobretudo áreas de pastagens dentro das propriedades rurais, que servem de combustível para o fogo. “Nós temos muito mais capim, como era ano passado. A gente tem ‘combustível’ nos pastos e grande maioria dos incêndios pegou nos pastos, não é floresta! A grande maioria é nos pastos. A gente precisa entender esse processo todo antes de sair falando bobeira e ver países fazendo propaganda difamatória contra o Brasil”, criticou.

“A gente viu recentemente uma coisa muito triste, uma mentira elaborada – e com muito dinheiro por trás – que movimentou pessoas com um nível de influência que tem que ser usado com responsabilidade. É o caso do ator Leonardo DiCaprio. Como é que combate uma fala ignorante de uma pessoa dessa? Como é que a gente contrapõe uma fake news empunhada por um cara como Leonardo DiCaprio? Isso é um problema!”, lamentou.

Nogueira lembrou ainda que a sustentabilidade inerente ao produtor rural não é fato recente e ilustrou com os ensinamentos de seu próprio avô. “Meu avô já era um preservacionista numa época em que ninguém falava disso. Ele gostava muito de árvores e era fanático por jenipapo também, que é uma fruta. Então ele conservou uma da área da propriedade da família muito maior do que se deveria conservar numa época que nem se falava disso, você podia abrir praticamente tudo”, contou.

O consultor tratou ainda do panorama atual de mercado, que favorece os pecuaristas, mas principalmente aqueles que se preparam para colher alta produtividade. “A pecuária vive um momento muito bom. A gente tem de fato um aumento de custo, mas um aumento de preços que que joga o patamar de resultado para algo interessante para quem trabalha direito, como sempre. Isso aí a gente não pode nunca deixar de falar, que mesmo o preço alto numa baixa produtividade, você tem uma renda pequena. Agora quem tem um trabalho melhor, que está produzindo com mais eficiência, esses aumentaram o lucro por hectare na faixa R$ 800 a R$ 1.000,00. Pode chegar a até R$ 2.000,00 dependendo do nível de tecnologia. É um lucro bem alto para a pecuária”, opinou.

“A grande lição que eu acho que a gente tem que tomar com relação a produção de boi, de carne bovina, principalmente esse ano, e no leite também podemos falar, é uma lição mais para a sociedade e inclusive para os ambientalistas um pouco mais radicais. Por que o preço está subindo tão mais do que outros preços? Isso vem de anos e anos e anos de margens estreitas. A gente tem defendido que o pecuarista tem que produzir com maior eficiência, mas a gente não consegue comunicar com todo mundo, isso acaba provocando uma redução de oferta e nós vivemos isso nesse momento. Mesmo assim, é bom reforçar o que foi lembrado no começo da entrevista, nós não temos falta de abastecimento. Nós temos alimentos no Brasil para alimentar nossa população e exportar. O preço está alto mas não por falta de alimentos, é por um desequilíbrio entre a oferta e a demanda”, comentou.

Antes de encerrar sua participação, o coordenador do Rally da Pecuária adiantou o que deve ocorrer com a edição 2020 do projeto, que teve que ser adiado em decorrência da pandemia. O rally deve ser remodelado e vai ocorrer entre novembro e dezembro priorizando a entrega de conteúdo por novos formatos virtuais ao invés da coleta presencial de dados.

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